A vida na Casa do Estudante

Como vivem e o que pensam os universitários que moram nos terrenos da própria universidade.

CEU 4 da UFSM. Foto: Dayana Giacomini.

A Casa do Estudante Universitário (CEU) número quatro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) recebeu seus primeiros moradores em dezembro de 2011. Nesse ano, 20 acadêmicos ocuparam o prédio antes mesmo de ele ser inaugurado pela instituição. Hoje a residência conta com estudantes das mais diversas graduações, vindos de diferentes cidades, do interior do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, inclusive de São Paulo.

O movimento é fraco na UFSM Frederico Westphalen aos finais de semana. Fora a presença dos guardas do campus, o cenário à primeira vista é composto por árvores, ruas desertas e pela quietude do meio rural. Volta e meia aparece uma imagem diferente no horizonte, vestígio das atividades da universidade realizadas durante a semana: são os moradores da Casa do Estudante.

Entre os dias 3 e 11 de novembro, foram abertas as primeiras inscrições para a Casa do Estudante no campus de Frederico Westphalen. A existência da Casa proporcionou a possibilidade de concluir a faculdade para muitos que não possuem condições financeiras de pagar um aluguel. Para concorrer aos apartamentos, os estudantes tinham de ter benefício socioeconômico. Os candidatos, que eram selecionados de acordo com sua renda per capta e indicadores sociais, deveriam ir ao NAP (Núcleo de Apoio Pedagógico) com uma foto 3×4 e preencher o cadastro para confirmação da vaga. Confirmada a vaga na casa, um novo lar para os universitários estava aberto.

A cerca de 800 metros do campus funciona o Restaurante Universitário (RU), o único restaurante aberto no final de semana. No domingo em que acompanhamos os moradores da Casa durante o almoço, foi servido carreteiro, bolo salgado, suco de uva e tomate. A refeição custa R$ 0,50 pelo prato e a comida é relativamente boa.

Depois do almoço, Bruna Parodes, 18 anos, volta para seu apartamento para estudar e ver televisão, únicas coisas para fazer em mais um domingo tedioso na Casa. “Aqui a gente não tem muitos afazeres. O que eu faço para passar o tempo? Jogo truco com os meninos, quando eles não vão para suas casas”, relata a jovem.

Bruna veio da cidade de São Gabriel, que fica a cerca de 450 quilômetros de Frederico Westphalen, para estudar Tecnologia em Alimentos no Colégio Agrícola. A moça vai para casa apenas nos feriados prolongados e nas férias. A maior parte do tempo fica na Casa, dividindo-se entre o estudo e a saudade de seus familiares.

Para Bruna viver na CEU, assim como os demais moradores, algumas regras são essenciais para o bom convívio. Conforme a coordenadora-geral da Casa, Adilvane Spezia, as principais regras são silêncio após as 23 horas dentro dos apartamentos, não deixar objetos nos corredores,conservação das instalações e do mobiliário existentes em cada apartamento e limpeza, manutenção e proteção das áreas de uso comum. Além disso, uma pessoa convidada pelo morador pode permanecer na casa durante quatro dias.

À medida que a casa foi recebendo seus primeiros moradores, foi sendo estabelecida uma organização, a qual hoje conta com um organograma para gerenciar as regras e sanar dúvidas que possam surgir.

A direção da casa é formada por coordenador-geral, vice-coordenador, secretário da direção, coordenador de infraestrutura e coordenador de organização social e cultura. Conforme o conselho, existem requisitos para que o morador da casa abandone as dependências.

Segundo a coordenadora-geral Adilvane, quando um morador comete alguma infração, o conselho gera primeiramente uma notificação oral; em segundo, uma notificação por escrito; em terceiro, perda da função, suspensão de qualquer bolsa de assistência estudantil; e, por último, perda da vaga na casa. Reúne-se uma assembleia para decidir a desinstalação do aluno, que tem quinze dias para deixar o local.

Com organograma de assembleia, as facilidades de reunião coma administração da faculdade foram melhorando, o que proporcionou que os alunos tratassem seus assuntos diretamente com os setores.

Para passar o final de semana no prédio, a alimentação é de suma importância, já que não existe nenhum estabelecimento comercial próximo à faculdade. Para isso, a universidade prepara um kit refeição para ser consumido durante os dias em que o restaurante não abre. Mas, de acordo com os moradores, um dos maiores impasses é o acesso ao RU. “Vira e mexe, quando chove, nos molhamos para ir. É a mesma situação vivenciada pelos demais estudantes da instituição. Além disso, há muito mato no caminho até lá”, conta Adilvane.

E essa não é a única precariedade. O universitário Ricardo Boscaini, do quarto semestre de Agronomia, diz que não há transporte aos finais de semana, faltam opções de lazer e a internet é muito lenta. “A internet não é boa, e a gente precisa dela para fazer trabalhos, pesquisas, baixar material extra para estudar. Já levei cinco horas para baixar uma foto”, destaca o aluno. Como o campus se encontra ainda em construção, novas licitações vão ser feitas para melhorar a infraestrutura. “As instituições públicas precisam de licitações, ai caímos no problema de agilidade do poder público”, relata o diretor do centro, Genesio Mario da Rosa.

As poucas atividades de lazer dos universitários se resumem a jogar bola no ginásio do Colégio Agrícola e truco com os colegas. Segundo Ricardo, já foi pedido um campo de futebol sete para a direção da universidade. Conforme os diretores do centro, já foram feito levantamentos e recursos solicitados para planejar o campo de futebol, com a ajuda da prefeitura municipal, que faria a terraplanagem, mas, com a troca dos prefeitos, uma novo levantamento seria enviado pra a nova administração.

Conforme Adilvane, no momento estão sendo buscados mais momentos de lazer. “O que nós agora estamos discutindo é a realização de momentos culturais para todos, sala de jogos coletivos, de cinema”.

Está enganado quem pensa que, com a vaga na faculdade, a vida está resolvida. Os desafios estão apenas começando, e o ritmo de estudo pode ser tão intenso ou mais do que o de tempo de cursinho, sem falar na organização estudantil da vida.O fato é que os acadêmicos que moram na Casa do Estudante apenas buscam o reconhecimento de que são seres humanos que têm como lar o próprio ambiente de estudo.

 

Maurício Martins / Da Hora

 

 

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